Era sábado. Não havia nada para fazer, como sempre. Jogos de futebol não são o meu forte, por mais que eu até torça para o São Paulo. Ninguém estava no msn, ninguém mandava recados no Orkut...Enfim, um dia chato! Em dias assim, gosto de ir na locadora pegar alguns filmes para assistir. Resolvi fazer isso. Ao descer as escadas do prédio tropecei violentamente num dos degraus, mas nada que causasse uma torção. Terminado o susto, entrei no carro e segui em direção a Blockbuster. Essas locadoras são caras, mas pelo menos nelas podemos ter a certeza de que vamos encontrar o filme que queremos. Sem contar o fato de que ao passar no caixa te dá sempre uma sensação de déjà vu, pois aquilo é muito semelhante a lugares que vendem fast-food. Só faltava a menina por trás do balcão dizer: “boa refeição! Obrigada e volte sempre!”. Voltando ao momento em que eu escolhia os filmes, caminhando pelos corredores da locadora, posso dizer que a capa de um deles chamou-me a atenção. Tratava-se de uma película lançada em 1942 pelo diretor Orson Welles, o mesmo que ficou famoso com Cidadão Kane. O nome que o filme recebeu aqui no Brasil foi “Soberba”, no entanto a tradução mais correta seria “Os magníficos Ambersons”. Resolvi levá-lo para casa porque li na sinopse atrás da capa que era “a história de uma família que reluta em se adaptar às mudanças pelas quais o mundo está passando”. Gosto de coisas assim. Resolvido, levei-o. Aquele filme realmente parecia ser interessante, principalmente vindo de um diretor tão competente. Já de volta em casa, liguei o aparelho de dvd e pus “Soberba”. Estava ansiosa para ver o filme que prometia acabar com meu tédio. Vieram os créditos iniciais. Adoro filmes antigos, ainda mais se forem em preto e branco. Logo nas primeiras cenas algo meio estranho: uma pessoa muito parecida comigo. Como podia ser? Por mais que aquilo fosse em preto e branco, dava pra ver que a tal atriz era loura de olhos azuis. Os olhos, a boca, o jeito de andar e de falar, tudo muito parecido! Não importa se o filme era em inglês, dava para se perceber que a forma suave com que ela falava era muito parecida com a minha própria. O corpo, os movimentos. Que susto que levei! Eu precisava saber o nome da atriz. A personagem que ela interpretava se chamava Lucy. Aquele nome me fez lembrar de escutar Beatles. Só o som deles poderia me acalmar naquele momento. Coloquei “Lucy in the sky with diamonds” pra tocar enquanto procurava o nome da atriz na capa. Anne Baxter era o nome dela. Esse nome não me era estranho. Aquilo merecia uma busca no Google. Digitei “Anne Baxter” e “filmografia”. Então descobri que ela havia feito dois outros grandes sucessos do cinema: “A Malvada”, de 1950, e o famosíssimo “Os Dez Mandamentos”, de 1956, além de outros filmes interessantes. Eu tinha que pegar esses filmes para ter a certeza de que não estava ficando louca. No caminho pra Blockbuster coloquei os Beatles para tocar novamente. Nada podia me deixar mais tranquila. Parecia um aviso de Deus, pois a música que começou a tocar logo que coloquei o cd foi “Act naturally”. Eu deveria agir naturalmente, sim, por mais que a situação fosse no mínimo estranha. O engraçado é que a música fala sobre filmes hollywoodianos. Já na Blockbuster fui logo pedir para que a moça do caixa, a mesma que num passado distante devia ter trabalhado no McDonald’s, me ajudasse a encontrar as tais películas. “Obrigada e volte sempre”, disse ela. Aquele tom de voz me irritava um pouco, pois lembrava-me aquelas atendentes de telemarketing que gostam de nos deixar aborrecidos oferecendo cartões de crédito sem anuidade. “Essa minha irritação pode ser TPM”, pensei comigo naquela hora. E era! Talvez por isso ter encontrado aquela atriz igualzinha a mim deixou-me tão espantada. A TPM multiplica nossas emoções em mil vezes. De volta em casa, coloquei “A malvada”. Mais um espanto: realmente, Anne Baxter e eu éramos praticamente a mesma pessoa! Coloquei “Os dez mandamentos” para tirar de vez qualquer dúvida. Não podia ser, parecia que eu olhava para um espelho! De repente comecei a ficar com medo. O que estaria acontecendo? Precisava me acalmar e pesquisar mais sobre a vida de Anne Baxter. Não pensei duas vezes, precisava ouvir Beatles. “I wanna hold your hand” foi a canção que começou a tocar. Seria um aviso? Voltei ao Google e digitei “Anne Baxter” mais uma vez. Fui logo na biografia dela existente na Wikipedia. Nasceu em 1923 e morreu em 1985. Era neta de um famoso arquiteto chamado Frank Lloyd Wright. Mais um fato engraçado: sempre pensei que se eu não tiver coragem de fazer engenharia, vou acabar cursando arquitetura. Anne casou-se três vezes na vida. Com o segundo marido foi morar na Austrália, em 1960. Em 1977, casou com um banqueiro, o qual morreu no ano seguinte. Em 1985, estava em Nova Iorque, mais precisamente na Quinta Avenida, indo em direção ao cabeleireiro, quando sofreu um desmaio e bateu com a cabeça. A hemorragia cerebral a levou. Que triste. Sempre tive medo de que algo assim acontecesse comigo. Ainda ouvia os Beatles e estava pensativa. Anne Baxter não saía da minha cabeça. Só conseguia pensar na morte trágica e na semelhança entre nós. Fui no banheiro lavar o rosto. Uma sensação gostosa de água fria na face. Só que algo estava errado. De repente não pude me mexer. Estava paralisada. Olhei para o espelho e me vi transformada em Anne Baxter. “Olá, você sou eu” ela disse. Como poderia ser? A sensação de não poder se movimentar me deixou ainda mais tensa. Eu queria sair dali. O espelho não podia estar falando comigo, aquilo era loucura. “Você é a minha reencarnação”, disse o espelho. Meu Deus, eu precisava sair dali! O meu rosto no espelho sorrindo para mim mesma era muito assustador. Fiz muita força para sair dali, mas não conseguia. Só podia ver meu reflexo dando gargalhadas. Pensei estar louca, mas aquilo parecia muito real. “Eu já disse que você sou eu!”, disse o reflexo no espelho com uma voz tão tenebrosa que fez com que eu apagasse totalmente de tanto temor. Acordei no chão do banheiro. Levantei-me e fui em direção à sala. “Here comes the sun” tocava tranquilamente. Por um instante achei que nada daquilo havia realmente acontecido. No entanto, quando fui em direção do sofá, senti uma mão encostar no meu ombro direito: “Eu disse que você sou eu!” ela gritou. Não hesitei, corri feito uma louca. Abri a porta e desci as escadas. Porém, tropecei no degrau e bati a cabeça. Não conseguia me mexer. Senti o sangue escorrendo do meu crânio. Lembrei que Anne Baxter havia morrido de forma semelhante. Só que era tarde. “Eu avisei que você sou eu!” ela gritou. Não! Gritei eu, dando um pulo no sofá e acordando. Olhei para a televisão e “Soberba” estava passando. Lucy, a personagem de Anne apareceu no filme. Olhei melhor e nem a achei assim tão parecida comigo. Dei stop. Pensei melhor e achei que não era legal ver filme. Melhor ouvir música. Beatles, como sempre, era a melhor opção. “Oh Darling”, tocou. Deitei no sofá, fechei os olhos e relaxei. Alguém sussurrou no meu ouvido: “você sou eu...”.
Agora gostaria que você deixassem a nota de vocês para essa historinha.
Obrigado pela atenção e beijos!
LÊ.






